Discussões

Competências para o trabalho em equipe

Texto escrito para fundamentar a Oficina “Desenvolvendo as competências para o trabalho em equipe”, oferecida na Semana Acadêmica de Psicologia da UnC (2016).

Competências para o trabalho em equipe

 

O objetivo desta breve explanação é tecer considerações acerca de um tema de bastante destaque na contemporaneidade: Trabalho em equipe.

Uma ressalva deve ser feita inicialmente: o assunto em questão é amplo e se faz presente em diferentes áreas, porém, o foco aqui será o contexto organizacional, mais especificamente, da psicologia organizacional.

E para iniciar as reflexões é importante colocar de pronto dois questionamentos:

Por que atualmente se fala tanto em “trabalho em equipe”?
Por que as empresas querem tanto que saibamos trabalhar em equipe?

Na verdade, as empresas perceberam que equipes suscitam sinergia e maior motivação, são mais eficientes e eficazes na adaptação às rápidas mudanças e às novas formas de trabalho, as quais demandam uma capacidade de se estruturar, iniciar um trabalho, redefinir seu foco e obter resultados rapidamente.

Complementando, a atuação das equipes beneficia a organização, pois os trabalhadores se envolvem mais ao atuar em conjunto, se preocupando em adquirir maiores habilidades a fim de executar as tarefas designadas com eficácia e qualidade. Além disso, trabalhando em equipe o prazo para a realização das atividades mostra-se reduzido, se comparado a atividades conduzidas individualmente. Logo, todos se beneficiam com o trabalho em equipe, uma vez que ele otimiza o tempo; traz vantagem competitiva; maior lucratividade; permite convivência mais equilibrada entre seus membros. Tudo isso gera satisfação (pessoal e grupal),
bem como torna o clima organizacional favorável. Sendo assim, ganha o profissional, ganha a organização.

Outro aspecto correlacionado ao tema em questão e que justifica a atenção em torno do mesmo pode ser colocado da seguinte forma: Segundo pesquisa da consultoria Manpowergroup, realizada no Brasil e em outros 40 países (com aproximadamente 60 mil empresas de diferentes segmentos), para 17% dos entrevistados, a “Colaboração” ou “Trabalho em grupo” é a competência comportamental mais relevante em um profissional, e também a mais rara de se encontrar no mercado atualmente. Por esta razão pode-se compreender porque trabalhar em equipe é algo tão solicitado.

Mas bem… Afinal de contas, o que significa trabalhe em equipe? É claro que existem inúmeras definições, diferentes abordagens… Porém, pode-se compreender equipe, de modo geral, como um conjunto de pessoas com objetivos comuns atuando no cumprimento de metas específicas.

Equipe, segundo o dicionário Aurélio é “grupo de pessoas reunidas para uma mesma tarefa ou ação”. Compreende-se, portanto, que é o conjunto ou grupo de pessoas que se aplicam a uma tarefa ou trabalho.

A denominação “trabalho em equipe” surgiu nos anos 1950, mas se tornou mais popular após a década de 1970, quando a crise do capitalismo, a globalização, as tecnologias, a maior qualificação dos trabalhadores exigiram estruturas mais flexíveis, dinâmicas e novas formas de gestão. Trabalho em Equipe tornou-se, portanto, uma estratégia empresarial que visa ser o diferencial da organização perante o mercado cada vez mais competitivo e sujeito a mudanças aceleradas.

Ainda acerca da definição, ressalta-se que equipe é também um grupo. Entretanto, distingue-se dele, pois, além de seus membros compartilharem objetivos comuns, realizam tarefas de maneira conjunta, através de delimitação de metas, por exemplo. Sendo assim, não basta colocar pessoas juntas numa sala, projeto ou departamento, para que elas, automaticamente, venham a se comportar como uma equipe, desenvolvendo laços de cooperação e o interesse em sua manutenção como grupo (MAXIMIANO, 1986). Uma equipe precisa ser pensada, planejada, conduzida, em suma: gerida. Ela não nasce pronta; é fruto de construção e trabalho contínuo, persistente.

E com relação ao planejamento de uma equipe, um aspecto é imprescindível: para que exista uma equipe, a sua formação é determinante.

A formação de uma equipe deve considerar as competências individuais necessárias para o desenvolvimento das atividades e atingimento dos objetivos. E este perfil não é tão simples de encontrar, por isso, deve-se filtrar muito bem (o que ocorre por meio dos processos de recrutamento e seleção de pessoal, com suas devidas técnicas). Durante a fase de formação, a equipe procura pessoas que possam contribuir para a realização de suas metas. Além disso, o processo de socialização de uma equipe diz muito sobre ela, é a fase de adaptação mútua.

A socialização está diretamente relacionada ao desenvolvimento do sentimento de pertença.  Ela permite maximizar os valores individuais e coletivos, uma vez que concebe que um indivíduo comprometido com a equipe tende a aceitar as metas por ela estabelecidas e se esforçar em cumpri-las com entusiasmo. A socialização possibilita que o indivíduo vivencie a equipe e que a equipe se acomode a ele. Neste sentido, o respeito aos princípios da equipe, a interação entre seus componentes e especialmente o reconhecimento da interdependência entre seus membros no atingimento dos resultados da equipe deve se fazer presente. Em suma, a socialização gera o sentimento de pertença. Este, por conseguinte, relaciona-se com a autonomia, a responsabilidade, a confiança e a valorização, premissas obrigatórias do trabalho em equipe.

É… O conceito parece simples, mas na prática, é um estágio difícil de ser atingido. Ele se alicerça em valores poucos cultivados, mas extremamente necessários, que representam as bases de uma nova visão que pressupõe não mais a competição como elemento motivador, mas a cooperação. Essa qualidade representa um salto de consciência, cria os fundamentos para o olhar em conjunto, as pesquisas em rede, o diálogo criativo que só se desenvolve com base em outros valores como a aceitação das diferenças e o respeito.
Estes são alguns dos valores do trabalho em equipe, os quais não são nada fáceis de serem fomentados na sociedade atual. Por isso, formar, trabalhar e manter uma equipe é um grande desafio. E este desafio requer certas competências, foco do que será exposto a seguir.

Competência refere-se, basicamente, a tríade conhecida como C-H-A, ou seja: Conhecimento, habilidade e atitudes. E que competências seriam necessárias para a realização de um trabalho em equipe? E mais do que isso, como desenvolvê-las?

Há que se considerar, é claro, que não existem “receitas” para se trabalhar em equipe, afinal, ela tem que ser organizada, formada e preparada de acordo com cada organização e suas características. Cada empresa deve explorar as suas condições, estrutura, cultura, etc. Mas, certamente, o desenvolvimento de algumas competências grupais é determinante do trabalho em equipe, ou seja: desenvolvendo determinadas competências em um grupo, ele poderá tornar-se uma equipe.

Dentre as importantes e necessárias competências (sendo que existem inúmeras outras), optou-se por citar apenas uma (conforme cada aspecto do C-H-A), para não alongar ainda mais esta exposição.
Sendo assim, dentre as competências centrais no trabalho em equipe e algumas formas de desenvolvê-las estão:

C – Conhecimento da tarefa em si (saber). Esta competência está intimamente relacionada ao treinamento e aprimoramento constante das habilidades da equipe (individuais e coletivas). Uma equipe precisar se atualizar.
Ela deve ser treinada constantemente, tanto nos aspectos técnicos quanto nos comportamentais.
A qualificação da equipe a torna competitiva.

H – Habilidade de comunicação. Ela é inerente ao trabalho em equipe e requer interação, cooperação (é o saber fazer). Para aperfeiçoar a comunicação, o feedback é um elemento que se faz necessário.
Assim, há que se estabelecerem formas de realiza-lo no cotidiano da organização. A boa comunicação nas equipes de trabalho é fundamental para sua alta performance. Geralmente, em equipes bem sucedidas, a comunicação interpessoal é mais franca, contínua e constante. Os membros conversam informalmente e dão conselhos com liberdade. Costumam se reunir para discutir processos e dificuldades de trabalho.

A – Atitude corresponde ao comportamento, às ações. É necessário trabalhar coletivamente os valores esperados da equipe e de seus membros. Assim, a atitude refere-se ao Ser e às relações interpessoais. O fortalecimento das relações interpessoais passa, obrigatoriamente, pela estima de cada colaborador.
A estima, por sua vez, só existe quando a pessoa sente-se segura, quando tem autonomia, sentimento de pertença e percebe sua importância perante a organização. Estes aspectos, como se pode notar, estão estreitamente vinculados ao conceito de motivação.

Diante de tudo que foi exposto deve-se ainda registrar que, mesmo em equipes muito coesas, conflitos são inevitáveis. Eles devem ser observados como uma oportunidade para que os membros do grupo aprendam uns com os outros. Assim, frente a situações em que dois ou mais membros apresentem ideias opostas, o conflito os motiva a compreender as opiniões e os interesses do outro (aqui entra, por exemplo, a habilidade da empatia, a qual precisa fazer parte do trabalho em equipe).

Conflitos precisam ser gerenciados. Sendo assim, é relevante que a equipe conte com um mediador, alguém preparado, neutro, ético e com maturidade para auxiliar nesses momentos. O (a) profissional da psicologia pode auxiliar muito neste processo. Mas para que isso ocorra, ele deve ter um trabalho de acompanhamento da equipe (independente de fazer parte da organização formalmente ou não), estando inteirado do negócio da empresa, seus valores, metas, características individuais e coletivas, entre outros.

Sintetizando as exposições feitas até aqui, o importante é que a equipe desenvolva seu trabalho com sinergia, ou seja, que seus membros atuem em conjunto, num mesmo ritmo, valorizando as competências, além de respeitar as diferenças e limitações de seus integrantes. Os integrantes de uma equipe de trabalho devem compartilhar objetivos (pessoais e profissionais), para assim atingirem também resultados. Logo, equipe se baseia em troca, convivência, interação, comunicação. Refere-se a estabelecer conexões. Acima de tudo, trabalhar em equipe requer flexibilidade. Os integrantes devem estar abertos a discussões que envolvam assuntos diversos, se comportando de modo participativo. As pessoas devem ser capazes de conduzir atividades diferentes, mesmo sendo responsáveis por tarefas específicas. Espera-se que cada integrante da equipe saiba qual é a sua função no grupo e que considere o todo, valorizando o processo por completo, colaborando com suas ideias e sugestões para o melhor desempenho da equipe. Em equipe conjuga-se os verbos sempre na terceira pessoa do plural: nós!

Por fim, cabe uma ressalva: nosso compromisso como psicólogos organizacionais é auxiliar a formar e manter equipes de trabalho. Não com a finalidade de atender as demandas do mercado, os ditames de uma sociedade capitalista, que precisa fazer com que as pessoas sejam mais produtivas. Mas, fundamentalmente, para auxiliar na qualidade de vida das pessoas, para que elas se sintam mais satisfeitas com o trabalho que realizam, para que exista espaço em seu trabalho para exercer a criatividade e o fortalecimento da estima e da autoeficácia pessoal e profissional.

A grande vantagem do trabalho em equipe tem que ser a de melhorar o ambiente de trabalho e as relações entre as pessoas que o constituem. Se a consequência disso for o aumento da produtividade, ótimo!
Mas isso tem que ser visto como uma possibilidade, não como a intenção principal do trabalho em equipe.

E como aponta Moscovici (1996), empresas baseadas em equipes evitam condições opressivas de trabalho e as substituem por processos e políticas que estimulam as pessoas a trabalharem efetivamente visando objetivos comuns.

Referências:

DICIONÁRIO AURÉLIO. Disponível em: <https://dicionariodoaurelio.com/equipe>. Acesso em: 17 de agosto de 2016.

MANPOWERGROUP. In: <http://economia.terra.com.br/blog-carreiras/blog/2012/12/04/trabalho-em-equipe-a-competencia-comportamental-mais-valorizada/>. Acesso em: 17 de agosto de 2016.

MAXIMIANO, Antônio Cesar Amaru. Gerência de trabalho em equipe. São Paulo: Pioneira, 1986.

MOSCOVICI, Fela. Equipes dão certo: A multiplicação do talento humano. Rio de Janeiro: José Olimpio. 1996.

 

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